Quarta-feira, 6 de Abril de 2005

para o meu pai

RosasBrancas.jpg O teu amor foi sempre claro e transparente! A forma como me embalavas, as prendinhas que me davas... Na memória guardo a sensação das noites em que uma voz sussurrando "Não a acordes", seguida de um abraço e beijo teus me despertavam para os bombons. Eu balbuciava um "bigado papá", retomando os sonhos, com maior doçura. Cresci com a certeza da tua imortalidade. Amadureci negando a impermanência e nem a tua doença me fez compreender a finitude do teu corpo. A eternidade era um atributo teu. Zombavas da morte, usando-a como tema de humor."Está a morrer gente que nunca tinha morrido!", lembrei-me no teu funeral. Estranho dizer teu funeral. Parece piada de mau gosto. Como se a qualquer momento fosses aparecer a rir, igual a tantas partidas que já me pregaste. Fizemos a última viagem juntos, mas desta vez não foste tu a conduzir. Mentalmente a música que tu gostas Coucouroucoucou Paloma entoava-me na mente. Lenta viagem, procissão lúgubre pelas mesmas ruas que outrora cruzámos, de mãos dadas, orgulhoso da tua menina, enquanto te baixavas para me apertar os cordões dos sapatos. Em adulta, poucas vezes te manifestei o meu afecto com a mesma naturalidade com que tu me expressaste o teu amor. Há um pudor estranho que impede a expressão clara do amor quando se é adulto. Nos infinitos diminutivos que usaste não cabe o amor que tinhas. De todos os meus momentos de silêncio, irrompe um grito: amo-te, sempre te amarei.
sinto-me: nada fará passar esta triteza
música: cou cou cu ru Paloma
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publicado por Isabel às 21:51
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