3 comentários:
De nuno a 14 de Abril de 2009 às 22:47
O amor liberta-nos. O nosso ego é complexo, hipertrofiado, sempre grande demais para o pequeno vaso que somos. Presos no ego, queremos segurança, a validação dos outros, prazer, elogios, conforto, dinheiro. E iludimo-nos pensando que estas coisas nos bastam para ser felizes. Amar (a definição mais curta e simples de amor) permite-nos transcender o ego. E deixar para segundo plano o que o sustenta - na distância do nosso semelhante, na alienação.

Amar faz-nos descer à nossa verdadeira dimensão, coloca-nos no mesmo plano de todos os outros seres. E mostra-nos que é a felicidade dos outros seres que faz a nossa felicidade. Uma parceria de duas pessoas que se amam é um ninho em que a vida nos permite ter alguma segurança e uma noção de vida em comum. É o refúgio tão sólido como a comunhão dos dois, onde a vida planta sementes e recarrega a energia que oferecemos ao mundo .

Quando eu era adolescente, bastava-me (assim parecia) o que eu dizia ser “sentir” um amor intenso. Quanto mais trágico e impossível fosse esse amor dos sentidos e da emoção (e não da vivência), mais verdadeiro e precioso me parecia. Na verdade, eu apenas encontrava, na outra pessoa feita objecto da projecção das minhas expectativas e frustrações, uma forma de estimular o orgulho solitário do ego. Vivia intensamente a possibilidade do amor e a sua negação. Não era a pessoa desejada que me negava o amor que, fossem as coisas diferentes, seria tão grande e épico – era eu que me fechava em emoções pueris e inconsequentes, preferindo “sentir” amor à acção de amar.

Ao crescer, e o amor dos outros por mim em muito me ajudou, percebi ser o amor mais simples, directo e claro que os labirínticos do romantismo em que eu me deixava amarrotar – herói romântico de uma história que só na minha cabeça era tão bela quanto impossível. Durante anos alimentei a impossibilidade do amor, contentando-me com a solidão do meu choro e do meu dramatismo, no conforto da mentira de que estava de facto a amar, interiormente.

O amor, ensinou-me a vida, não é éter ou nuvem, não é tragédia nem teatro. É abraço, dádiva, felicidade, claridade. Mantenho da adolescência uma forma superficial de encarar as coisas. A tandência de preferir o isolamento de sentimentos não concretizados é mais inutilmente doloroso mas transporta a comodidade de não me fazer enfrentar os outros ou o mundo. Luto para que os meus gestos sejam simples como o abraço de uma mãe ao seu filho, seguros como o filho que avança, no desiquilíbrio dos primeiros passos, para o abraço da mãe.
De nuno a 14 de Abril de 2009 às 22:47
(continuação)
A vida adulta mostrou-me que não só tenho medo de amar, como tenho medo de ser amado. É fácil ver no amor que hesitamos viver toda a possibilidade de que as coisas corram mal, de que eu seja obrigado a ver-me como eu sou e não como eu desejo ser. Eu gosto muito que gostem de mim. O meu ego gosta da validação dos outros, do calor dos elogios, de sorrisos concordantes com as minhas ideias. Mas evita a reprovação potencial que podem merecer as minhas decisões, evita os caminhos directos ao coração e à vida dos outros – habilmente minados pelo medo. Felizmente também me mostrou que o medo é um bicho que gosta de se mostrar mais aterrador e imbatível do que na realidade é. O medo não é o perigo, o medo não é falha, o medo não é a queda. O medo é esse dedo de velho do restelo que me diz: cuidado com o perigo, cuidado com as tuas falhas, cuidado com as tuas quedas. Não posso sofrer por antecipação a queda que não dei, nem paralisar perante o perigo que não enfrentei. Depois do dedo frio do medo na espinha, da reflexão e das orações, do olhar dos que me amam, vem a decisão. E nessa o medo deve pesar um pouco, mas não demasiado.

As raras vezes em que tive coragem e iniciativa e escolhi o caminho que o amor que apontava, a vida foi generosa. Não porque me tenha feito viver contos de fadas (que os mitos da adolescência me fazem preferir à realidade) ou me tenha transportado directamente para o paraíso sem passar pelo quotidiano e sem sofrer as dores próprias da existência. A oferta que a vida me deu foi permitir-me ser genuíno, verdadeiro e próximo de quem digo querer amar. O cosmos, Deus, a Vida não me deixam órfãos nem me entregam ao sofrimento desprovido de energia e capacidade de assimilar o bom e o mau. Mas deixam-me livres perante as minhas decisões. E posso escolher ser infeliz, posso resignar-me pelo pau que me flagela as costas (que sempre folgam enquanto ele vai e vem). O maior medo é que tudo seja maior, mais poderoso que eu. Pois tudo é mais poderoso e forte que eu. Mas eu faço parte desse todo. E se amar os que me estão próximos, os outros seres, tão expostos ao medo como eu, encontro harmonia e sentido, onde o medo e a dúvida me querem fazer ver apenas sombra e abismo.
De Sandra a 28 de Abril de 2010 às 17:45
Quem és? Sinto-me completamente fascinada pela tua mente, nunca encontrei ninguém que conseguisse descrever a complexidade do amor em palavras tão simples...agora percebo como de forma tão subtil uma pessoa nos pode tocar, sem nunca a termos tocado. Nuno eu podia amar-te neste momento se não fosse pela minha tentativa de criar um campo de desapego com todos os seres. Um beijo na alma. Sandra

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