Domingo, 17 de Outubro de 2004

Padmasambhava

guruRinpoche.JPG Às vezes, caminhamos na vida com os olhos fechados. Deixamo-nos levar pelas correntes que passam. Ora vestimo-nos todos com a roupa da marca X, porque é assim que dita a moda, ora lemos todos o mesmo livro porque é o mais vendido, ora vemos o mesmo filme, porque é um Blockbuster nos Estados Unidos. E assim vamos andando, uns arrastados pelos outros, com pouco espírito crítico, cansados pelas preocupações comezinhas que a vida nos traz. Resumindo, sem qualquer controlo sobre a nossa vida. Outras vezes, procuramos na vida algo de profundo, algo de místico, precisamente porque nos cansamos desse vaivém para um lado e para o outro, sem aparente propósito, e então ansiamos por milagres, desesperadamente queremos encontrar o misticismo e o fantástico. E deixamo-nos levar pelo mais simples que é o espectáculo da ética ou da religião. Uma e outra atitude perante a vida parece-me errada. Se na primeira atitude, estamos muito afastados dos verdadeiros valores éticos, que deveriam reger sempre a nossa vida, na segunda, não mais vamos encontrar do que a rama, a superfície daquilo que pensamos ser a ética. Ficamo-nos pela distracção do mundo materialista ou pela distracção do espectáculo religioso. Um grande Mestre que tive a honra de conhecer, Tulku Pema Wangyal Rimpoche chamou sabiamente a esta última postura perante a vida "o materialismo espiritual". Para quem procura realmente dar um sentido à sua vida, aconselho a começar por se integrar na comunidade onde vive, a dar, a ouvir, a receber, a estar atento. E só depois, então, a pensar, reflectir e procurar. Alguém me perguntou o é que eu faço na realidade para ajudar os outros (penso que talvez com algum cinismo). Na realidade, faço um trabalho humanitário muito sério numa ONG (organização não-governamental), mas posso fazer muito mais quando não estou distraída: posso sorrir ao motorista do autocarro, mesmo achando que ele não "merece" porque é um "mal-encarado", posso ter umas palavras simpáticas no elevador quando vou a uma instituição pública, em vez de desviar os olhos, como habitualmente se faz na urbanidade dos nossos dias. Hoje espantei-me porque alguém me disse que tinha ajudado no dia anterior. A Maria Manuel, praticante de meditação transcendental desde 1999, ontem questionou-me sobre a meditação tibetana e a meditação zen e eu senti-me embaraçada, eu que nem sei bem o que é isso da "meditação transcendental", e quase nada sobre meditação budista. Respondi-lhe com a minha sinceridade habitual que não estou muito preocupada com "essas coisas", apenas presto atenção à postura das costas e pratico a atenção, a concentração, mas, e estou a ser verdadeiramente honesta, não estou preocupada em praticar todos os dias, das x às x, muito mais importante é estar atenta sempre. Aos outros, claro. Porque é com eles que eu vivo neste mundo. Apenas pratico alguma meditação como forma de aumentar o poder de atenção, a memória, a percepção. Noto que depois de meditar é-me mais fácil conduzir e reparar nas pessoas que esperam para atravessar a rua e, quando reparo nisso, paro e deixo-as passar. É-me mais fácil agora reparar nas pessoas e nos animais em geral. Já não estou tão distraída como dantes. Agora não posso dar a desculpa, ainda que verdadeira, de que não as ajudei porque não reparei. E isso faz-me sentir uma pessoa melhor. E dá-me felicidade. E as pessoas à minha volta também ficam mais felizes. E tudo é uma cadeia, ou melhor, uma espiral na qual vou mergulhando com os olhos bem abertos. Mas, voltando ao início, à conversa que tive com a Maria Manuel, ontem, sobre a meditação, senti que tive uma conversa banal. Para ser completamente sincera, estava até um pouco impaciente a pensar que provavelmente ela era mais uma daquelas pessoas que procuram o espectáculo da religião (foi a primeira vez que a vi, não a julguei, mas deixei várias opções em aberto e essa era uma delas), afinal, para meu espanto, hoje, na segunda vez que falei com ela, a Maria Manuel falou-me da importância das minhas palavras de ontem. Ainda bem que não fiz um julgamento de valor e lhe respondi o melhor que pude, ainda bem que estava atenta e falei seriamente do que penso. Porque ela ouviu-me realmente. Chegar ao Céu pela mão de Deus depois de morrer, entrar no Nirvana seguindo os ensinamentos de Buda... quem me garante o futuro? Nada disso me importa asism muito. Importa-me o presente, AGORA! E agora eu não morri e vivo com os outros, dependendo deles, todos (do padeiro que cozinha o pão que eu não sei sequer fazer, do electricista e técnico de computador que me permite usar este computador e partilhar estas linhas, dependo das pessoas que trabalham nas fábricas para produzirem as roupas que visto...) Uma pessoa que eu prezo muito e considero AMIGA, TSERING PALDRON, numa palestra falou sobre a atitude de gratidão que devemos ter pelos outros e isso ficou-me... Por viver rodeada de seres (incluo os animais, inclusive da minha cadela que me traz muita da felicidade que sinto -só quem nunca teve um cão desconhece a forma exuberante como o cão demonstra o afecto que sente cada vez que chegamos a casa), por ter percebido, não intelectualmente, mas intrinsecamente que preciso de todos, só por essa razão posso parecer mais dedicada a "coisas transcendentes" como a meditação ou o budismo. Na realidade, não estou nada preocupada com milagres ou magias... Se acontecem "coisas estranhas", se elas acontecem para melhorar a vida dos seres, então que aconteçam, mas não me deixo ficar pelo materialismo, nem que ele seja muito espiritual.

publicado por Isabel às 19:25
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2 comentários:
De Jean a 22 de Setembro de 2005 às 11:04
Olá,
queria-te perguntar se conheces algum site em português que tenha o discurso de Yeshe Tsogyal com o Guru Rinpoche sobre o Vajra Guru mantra, onde Padmasambhava explica esse mantra.
Como este, só que está em inglês : http://www.jcrows.com/vajraguru.pdf
Obrigado
Jean
jeandupont108@yahoo.fr
De 3BPt a 18 de Outubro de 2004 às 22:51
Foi saboroso descobrir este blog. A prática de Bodisatva é realmente preciosa, e a divulgação que lhe fazes igualmente preciosa. Tudo de bom e muito ânimo!
Teyata Om Muni Muni Maha Munaye Soha

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