Quinta-feira, 28 de Outubro de 2004

Desapego e leis universais...


Ainda sobre a atitude do desapego (que tantas dúvidas suscita), deixo aqui uma história que me foi contada pela minha amiga Tsering e que ilustra de forma brilhante como a revolta perante os imprevistos da vida só traz frustração. No universo as leis funcionam mesmo quando as desconhecemos e saber lidar harmoniosamente com elas pode ser uma arte. Aliás, essa minha amiga escreveu um livro que aconselho vivamente, chama-se “A Arte de Viver”. (http://tsering.no.sapo.pt) Num lugar longínquo havia um vizir, uma pessoa muito sábia, que tinha o papel de fazer justiça no palácio real. Era um homem muito procurado por todos pela fama da sua sabedoria. Uma das frases que ele mais usava era: ”Se calhar, isso aconteceu para o seu bem!” Um dia, o rei perdeu um dedo num acidente. Ficou muito aflito e foi procurar consolo junto do vizir. Depois de se lamentar, o vizir disse-lhe: “Vossa Majestade, se calhar, isso aconteceu para o seu bem!” O rei não esperava nada daquilo, gostaria de ouvir algo como “tem razão para ficar triste, coitado” e ficou zangadíssimo. A sua cólera era tanta que o mandou prender nas masmorras do reino. Passaram-se algumas semanas e o vizir preso a pão e água. Um dia, o rei foi a uma caçada e, no meio da floresta, ele e os seus servidores foram aprisionados por uma tribo de canibais. Mataram imediatamente todos os criados e levaram o rei para a aldeia. Como era o mais nobre de todos, seria oferecido às divindades. Começaram os preparativos. Aqueceram a água e preparavam-se para lavar o rei quando repararam na falta do dedo. Um ser defeituoso não servia para os deuses. Explicando-lhe a razão, libertaram-no. O rei ficou felicíssimo e, enquanto corria para o palácio, pensava na injustiça que cometera com o vizir. Pensava: “O que eu fiz não tem perdão. Tenho que o libertar imediatamente!” Foi pessoalmente à masmorra pedir-lhe perdão e contou-lhe o sucedido. O vizir ouviu atentamente e retorquiu:” Mas, Vossa Alteza, se calhar isso aconteceu para o meu bem” O rei não entendeu a calma e o desapego do vizir: “Como é possível pensares que foi para o teu bem? Que bem é que pode advir de uma prisão escura e húmida?” Serenamente o vizir respondeu: “Se Vossa Alteza não me tivesse mandado prender, eu teria ido consigo à caçada! Teria sido morto” Considero ignorância e tacanhez de espírito ignorar as leis do universo por falta de compreensão. Pessoalmente não sei explicar os mecanismos de funcionamento de coisas tão comezinhas como as leis da Física que regem a internet, a rádio ou, ainda mais simples, a eletricidade. Mas duvidar da existência dessas leis seria, no mínimo, burrice da minha parte. Acredito que existem, porque observo os seus resultados práticos. O budismo faz observações sobre a natureza da mente há quase três milénios. O funcionamento do inconsciente, por exemplo, explicado pela psicologia moderna no séc. XIX, já foi descrito por Buda. Cada vez mais a ciência de hoje comprova os ensinamentos budistas. Não há razão, então, para não os praticar.

publicado por Isabel às 03:49
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3 comentários:
De Jlio Santos a 29 de Outubro de 2004 às 13:08
E já agora mais um comentário... para partilhar uma das dúvidas e (talvez) lançar o debate...
Concordo com alguns aspectos do conceito do desapego e considero-o muito importante. Contudo, por vezes parece-me que ele é confundido com resignação...
Pegando na história do vizir...
A aceitação da prisão pode ser vista como resignação. Se ela foi injusta o vizir deveria ter lutado contra ela. A justificação que ele no fim dá ao rei de que a prisão o salvou parece-me forçada... poderiamos sempre imaginar milhares de eventos que conduzissem a resultados diferentes. Uma coisa seria a aceitação da prisão no sentido do que lhe é incontornável (o Vizir em dado momento não tinha forma de o evitar) outra é torná-la justificada e dar-lhe até um carácter positivo. Aí há uma tentativa de forçar uma justificação para uma infustiça. Isso pareçe-me resignação. Saindo um pouco do exemplo da história, recordo o sistema de castas altamente repressivo que imperava na India que foi mantido por não ser contestado por razões culturais e religiosas associadas a este desapego/resignação.
Volto apenas a sublinhar que valorizo muito o desapego. Quero é separá-lo do que a meu ver é resignação...
De Jlio Santos a 28 de Outubro de 2004 às 18:00
Olá.
Queria só deixar um pequeno feed-back em relação ao teu blog (no geral e não apenas a este post) que tenho acompanhado.
Expressar o meu agradecimento porque a partilha que aqui fazes tem sido importante para mim. São abordados vários assuntos do meu interesse e o blog tem sido por isso um estímulo à minha reflexão sobre eles...
Concordando com umas coisas, com dúvidas noutras...
Mas para já é só...para deixar este agradecimento.
cumprimentos
JS
De Tangas a 28 de Outubro de 2004 às 04:10
sidartha no feminino!

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