Quarta-feira, 17 de Novembro de 2004

Paixões

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As paixões são emoções muito fortes, com uma carga energética intensíssima. A paixão consiste num fogo de artifício que pode ser o rastilho para um profundo sentimento ou não. De um ponto de vista biológico, a paixão traduz uma compatibilidade genética, com vista à reprodução e parece estar intimamente ligada ao aperfeiçoamento da espécie; assim quando 2 pessoas se apaixonam, o que acontece é que os genes das duas são bastante compatíveis, havendo uma maior possibilidade de reprodução. Do ponto de vista do budismo, a paixão é algo de tão efémero como qualquer outra emoção. Vem com toda a força e passa. É impermanente. A ira e a paixão fazem parte do mesmo tipo de emoção, mas opostas, a primeira causa aversão e a segunda apego. As duas desencadeiam energia fortíssima que tolda o pensamento e a razão, nos fazem perder o autocontrole. A ira leva-nos a actos impensados, a paixão também. Se a paixão parece muito bonita e está associada à nobreza e qualidade de espírito, é pela "lavagem cerebral" que nos é feita pelos meios de comunicação social. Diariamente somos invadidos por imagens de casais apaixonados, em anúncios publicitários, filmes e fotografias, por músicas e clips musicais em que a paixão, o sexo, o erotismo estão associados à felicidade . Imagens assim penetram no cérebro e dão a falsa ideia de que da paixão nasce a felicidade. Claro que é possível ser-se feliz com alguém por quem nos apaixonamos, mas não é a paixão a sua origem. É toda uma construção feita da convivência com a outra pessoa, baseada no respeito, na liberdade, tolerância, altruismo, em suma , no amor, no pensar no outro como alguém acima de si próprio. A paixão começa por ser o rastilho que pode originar o amor, se soubermos estar atentos e soubermos cultivar sentimentos nobres, para os quais é preciso muita paciência, esforço e determinação. Três factores que não são necessários na paixão, que vive apenas de energias químicas. Analisando a paixão, veremos que nela estão incluidas outras emoções negativas, como o ciúme (ou inveja), que por sua vez provoca a cólera, e o apego. A paixão acarreta posse. Quando vivemos apenas apaixonados, facilmente sentimos o outro como nosso e dificilmente aceitamos um olhar que não seja centrado sobre a nossa pessoa. O amor, pelo contrário, liberta. Quando amamos, desejamos sobretudo que o outro seja feliz. Por isso, não o desejamos para nós apenas. Claro que é bom sentir que outra pessoa está ali toda inteira dedicada a nós. Mas... Não cansa? Será que é justo termos alguém que nos está totalmente dedicado? Quem prefere os gatos aos cães, sabe bem do que falo. Eu que gosto de ambos, sei exactamente porque gosto de uns e de outros. O cão faz companhia, diz-se. O gato é independente. Há quem precise de um cão exactamente pela necessidade quase obsessiva de atenção. Do gato, não podemos esperar essa atenção. O gato vem acariciar-nos quando quer, não quando queremos. É assim o amor. Alguém que nos acaricia porque quer, não porque queremos ou porque se sente obrigado pela força da paixão. Para o ego é bom sentir que o outro está apaixonado. É verdade, não? Quando eramos crianças precisavamos de um ursinho de peluche para dormir, como substituição do calor da mãe. Essa segurança é ilusória. A paixão é também um tipo de ilusão. A segurança que todos buscamos não pode nunca ser encontrada no exterior de nós. Ela vem do interior. A ilusão de que a paixão chega para construir a felicidade é mais uma ilusão do ego. A verdadeira felicidade só pode vir do interior. Do amor.

publicado por Isabel às 00:31
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3 comentários:
De ISABELbODHISATTVA a 31 de Agosto de 2006 às 21:03
IMHOTEP - Fico contente por perceberes o que eu quero dizer, especialmente tu que afirmaste acreditar no amor eterno : )
De Imhotep a 31 de Agosto de 2006 às 18:48
Uau, concordo completamente, impressionante. Há uma frase do Dalai Lama que é qq coisa como "a paixao é uma fabricação do espírito, por vezes basta uma palavra, um gesto e desaparece". Sim, acho que não há melhor maneira distinguir o amor, o desejo de bem estar do outro, sem mais nada. A paixão queima, sofoca, o amor até é ligeiramente refrescante, e liberta!
De troblogdita a 22 de Novembro de 2004 às 15:26
Terra firme. E céu limpo. As emoções descontroladas trazem nuvens e terramotos. E eu gosto de poder olhar para ti com clareza e ir ao teu encontro sem tropeçar. Mas quando necessário ponho umas galochas e um impermeável e atravesso a tempestade. Nem sei bem se a amizade é porto seguro ou asa vigorosa. Mas nela cresço. Solidamente. Um abraço terno para ti e para o teu amor-homem. Tenho saudades dos dois.

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