Quarta-feira, 24 de Novembro de 2004

Paixão e Amor

amor.JPG

"A paixão é um dos sentimentos que mais alegria nos dá, mas por outro lado consegue ser cruel e fria quando a procuramos e já lá não está..." , escreveu o José Carlos num comentário que gentilmente deixou. O Paulo diz que "vai e vem". Por provocar tão grandes sofrimentos é que é completamente desnecessária, a meu ver. Se a paixão fosse um sentimento real, sincero e não uma emoção ilusória, ela não se transformaria tão facilmente em raiva. Quantos de nós não passaram pela experiência de uma paixão transformada em raiva? No início, quando a paixão é correspondida é tudo maravilhoso, planamos numa espuma de nuvens, falamos a linguagem dos bebés, oferecemos mil e uma "prendinhas", pensamos no outro como a pessoa mais fantástica do mundo. Acreditamos que morremos sem ela.  Tratamo-la com uma parcialidade desmedida. Se ela ressona, parece um gatinho a ronronar. Mas se uma noite, por uma razão imprevista, temos que  dormir com uma pessoa com quem não simpatizamos e que ainda por cima ressona, o mesmo som torna-se um horrível zurrar que nos impede o descanso. A maneira como tratamos alguém por quem estamos apaixonados é extremamente injusta para com todos os outros seres que coexistem no nosso espaço. Não gostava que pensassem em mim como uma mulher fria, incapaz de sentir emoções, ou uma mulher destroçada pela frustração de se considerar fisicamente feia, sem nunca ter tido namorados nem saboreado a paixão, que tem a sua desforra nestas palavras, não passando isto tudo de um meio de camuflar um complexo de inferioridade. Não é nada disto que se trata! Habitualmente dizem que sou bastante atraente e bonita e a modéstia impede-me de comentar a quantidade de namorados que tive ou paixões que despertei : )  Eu própria senti-me  apaixonada várias vezes já. Por isso mesmo sei bem do que falo. Analisei já bastante bem a paixão, introspectivamnte, dedutivamente e medito muito também (não no sentido de reflexão, mas no sentido budista - meditação com emoções como suporte). Quem me conhece há anos sabe bem das minhas tendências latinas emocionais... Limito-me a dar à paixão o seu real valor, o de uma emoção passageira e fugaz tal como qualquer outra. Quando sinto medo ou pânico, sigo o mesmo processo. Só depende de nós valorizar ou não algo. Quem quiser valorizar a paixão e rodear-se de fotografias da amada e ouvir músicas românticas e ver filmes e.... enfim, vai com isso engrandecer a paixão, claro e pode até apregoar que é um grande amor, mas na primeira oportunidade, tudo vai ruir. É como construir um grande castelo junto ao mar. Eu prefiro contrui-lo em rochas sólidas. Por isso, quando me apaixono, começo por perceber que estou apaixonada, por notar os sinais do corpo (o bater mais forte do coração quando ele telefona, alteração da respiração quando penso nele, etc) e depois fico atenta às atitudes que formo na mente (tendência para priveligiar essa pessoa, desejo de estar com ela, etc.), e só isso. Depois espero. Simplesmente espero com paciência. Não recuso a paixão nem a valorizo. Não procuro encontrar a pessoa nem a afasto. Faço um esforço consciente para estar atenta a todos os meus movimentos interiores e desejos. Tento ter presente esta realidade: a paixão é uma ilusão passageira.  Acaba sempre por passar. Nunca nenhuma das minhas paixões durou até hoje. Mas algumas evoluiram para um verdadeiro sentimento de Amor, de compaixão, ou se preferirem... de amizade. (Nunca entendi bem a diferença entre amor e amizade...) Quando existe apenas paixão, facilmente ela se transforma em agressividade e já vi, com tristeza, pessoas que num dia me ofereciam o sol, a lua e as estrelas e no dia seguinte quase me queriam matar. A paciência, a generosidade, a ética, o esforço, a sabedoria e a concentração permitem-nos chegar lá, ao valor real do sentimento. A paciência permite esperar com calma o evoluir da emoção. A generosidade faz-nos dar a oportunidade ao outro de se mostrar, de se revelar e deixa-nos revelar também ao outro. A ética indica a melhor conduta a seguir com o outro. O esforço obriga-nos a empenharmo-nos activamente nesta descoberta do real valor da emoção.  A sabedoria permite-nos essa avaliação. A concentração, através da meditação, abre-nos um caminho no qual a consciência de nós e dos outros se torna cada vez mais presente. São as 6 bases essenciais que tento seguir. Acreditem que tem sempre dado bom resultado. Quando não as segui, aí sim, o resultado foi desastroso. Porque é muito melhor e dá muito mais prazer ter uma relação profunda e sã, com um sentimento como o amor por base e, depois ter momentos de paixões. Alguém comparava a paixão a uma fogueira. Pois o amor é uma fogueira feita com troncos de carvalho ou de aveleira, arde noites a fio, aquece a casa toda, mas quase não tem chama, a paixão é uma grande fogueira de altas chamas de palha que dura muito pouco. Quando se tem a arte de saber fazer uma fogueira com os dois ingredientes...

tags: ,
publicado por Isabel às 02:05
link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De jorge a 6 de Dezembro de 2004 às 12:03
ahimsa = amor infinito = capacidade infinita de sofrer
De isabelbodhisattva a 27 de Novembro de 2004 às 12:42
Paulo,em nenhum sítio digo que recuso o sofrimento, eu saliento que tento não me deixar levar por qualquer tipo de sofrimento, e especificamente falo das emoções negativas; quando falo da paixão, por exemplo, saliento a tremanda parcialidade que esta provoca e falo apenas da estrema atençã que devemos ter... Só isso, penso eu... :)
isabel
De Sofia a 25 de Novembro de 2004 às 17:04
Pessoalmente não considero nenhum 'mal' ou sofrimento como desnecessário, vejo-os apenas como escolhas que nos trazem aprendizagens preciosas, que nos mostram um pouco mais de nós mesmos e das formas como escolhemos nos expressar.

Quanto à paixão, não a vejo distante do Amor ou mesmo em lados opostos, assim como não vejo uma paixão transformar-se em raiva se cada acto for de e em Amor, mesmo uma pequena (ou grande) paixão.

Sou apaixonada por Natureza... pela vida, por tudo o que me rodeia. Por vezes surgem umas paixões (no geral) maiores e assolapadas que me mostram outras formas de ver as coisas. Essas expectativas criadas pelo outro não são a paixão nem vice-versa. Paixão pode até ser só pele e durar aquele momento, mas vivida intensamente, sentindo-a por completo, pode ser uma experiência em pleno. Mas podes viver esta paixão COM as tuas expectativas sobre o outro, a responsabilidade que lhe imputas pelos seus actos e palavras... levando provavelmente à desilusão. Ou podes vivê-la SEM essas expectativas, apenas estando, SENDO o momento, SENDO essa paixão, SENDO o outro, SENDO UM. É assim que vejo as coisas.

Agora o Amor... não vejo como ele pode não estar presente se a minha (e tua) essência é Amor. Ao tomarmos consciência deste amor, não há como fazermos as coisas sem ele. Seja um passeio, um relacionamento, uma tarefa, uma paixão.

É verdade que as paixões agitam as águas do nosso lago interior e, por consequência, todo o nosso SER. Quando estamos num estágio em que essa serenidade é natural e impertubável, sentimos se calhar na mesma intensidade, mas de uma forma totalmente diferente. Mas quando essa serenidade a tempo inteiro se faz difícil, forçá-la é como querer chegar ao final daquele caminho sem o percorrer. Podemos chegar lá, claro. É bom! Mas falta tudo o resto. De outra forma, naturalmente chegaremos lá e nada será forçado, nada será "custoso"... apenas SERá.

Olha... sei lá... saíu! :)
De Paulo a 25 de Novembro de 2004 às 14:17
querida amiga Isabel,

Nao concordo com "Por provocar tão grandes sofrimentos é que é completamente desnecessária, a meu ver.".

É desnecessario sofrer, por exemplo, com a perda de um amigo? É desnecessario sofrer ao contemplar a miséria em que vivem muitos de nós?

Ok. Não sofro, não continuam a morrer os amigos? não continuam pessoas a viver na miséria e na ignorancia?


Estarmos conscientes para a verdade do sofrimento, é um grande passo a dar. Podemos ignorar o sofrimento, ja sabemos onde isso nos leva, ou, podemos aceita-lo, viver a experiencia da nossa vida de uma forma completa, sem acrescentar ou retirar nada.

Geralmente temos a tentação de tirar aquilo que do ponto de vista do nosso ego nos traz mais dificuldades, neste caso o sofrimento, olhamos à nossa volta, para nós, e quantas vezes tentamos isso? e que resultados deu?

Aceitar, deixar cair barreiras, muros, estabelecer pontes, incluir, nesse caminho poderá vir algo de novo.

Comentar post

.sobre mim

.pesquisar

 

.links

.pensamentos recentes

. Natal - tempo de PAZ

. procure a riqueza em si

. a vida

. amor-cisne

. como distinguir o amor ve...

. meu amor

. dor amor

.tags

. todas as tags

.Dezembro 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29
30
31
blogs SAPO

.subscrever feeds