Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005

confiança na impermanência

Aproveito esta "maré" de positividade na minha vida para reflectir sobre a impermanência. Hoje tudo corre bem, amanhã sei lá. A impermanência é um dos grandes ensinamentos budistas. Perante a incerteza de um mundo que, de repente, pode ser levado por uma onda gigante, precisamos de uma âncora para não sermos arrastados para o fundo. Se a realidade é, para além de instável, ilusória, a pergunta que se impõe é: que âncora? A que nos agarramos, onde buscar segurança? E todos os seres precisam de ter um ninho protector para onde voltar nos momentos de fragilidade. A âncora está no interior. A âncora está nas certezas que são: todos os seres são intrinsecamente iguais nos seus medos e desejos e de que existe algo muito mais profundo do que esta quotidiana vivência numa sociedade hedonista, egocêntrica e, a maior parte das vezes, tão fútil. O refúgio chega-nos naturalmente quando paramos. Meditar é parar. Parar o corpo e parar o fluxo de pensamentos soltos que provocam emoções e reacções descontroladas e desmedidas. Dizem os sábios tibetanos que deixar o pensamento à solta é como andar num cavalo sem rédeas. O cavalo vai a seu belo prazer para onde lhe aprouver. Pegar nas rédeas do cavalo, através de uma observação atenta dos pensamentos permite uma selecção. É um acto de inteligência. A atenção permite o controle de emoções fortes como o medo ou a raiva ou a emoção do júbilo exagerado. Uma amiga minha, Tsering Paldron, monja budista, numa palestra falava sobre a âncora que todos temos mas que raramente usamos. Dizia ela, usando esta interessante metáfora, que, muitas vezes, andamos com a âncora dentro do barco, sem sequer ter consciência da sua existência. A alegria de um trabalho bem feito, em que tudo deu certo, fez-me quase chegar a essa euforia desmedida, em que quase cavalgava de rédeas soltas. Mas rapidamente deitei a âncora para fora do barco. A elevação das ondas é superficial. Continuo a sentir o medo ou o orgulho, mas a âncora bem presa não deixa que me arraste nessas emoções. Parar é o maior refúgio. Observar, sentir como observador, como um outro que olha para nós. Não é preciso julgar. Basta ter a real noção do nosso posicionamento perante a situação presente. Presente: aqui e agora, sem conjecturas sobre o futuro ou julgamentos sobre o passado. Eu escolhi este caminho porque é o único que faz sentido para o meu espírito crítico. E, porque não dizê-lo, é o único que me dá prazer. Sentir a impermanência e sentir-me parte dos outros seres dá-me o conforto da confiança.

publicado por Isabel às 20:58
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3 comentários:
De isabel a 31 de Agosto de 2006 às 20:43
IMHOTEP - É verdade, nem sempre é confortável sentirmos que não podemos contar com ninguém a não ser connosco próprios. Mas é bem melhor ir tomando consciência disso do que iludiro-nos e, de repente, depararmo-nos com essa realidade.
De Imhotep a 31 de Agosto de 2006 às 19:20
Pois, eu às vezes sinto necessidade de voltar à segurança da meditação. E da impermanência, ou desapego, que estão muito ligados. Mas penso muito que o budismo não pode ser útil para muitas pessoas. É pena mas, "está sempre tudo a mudar e não podes segurar-te a nada" não é boa coisa para se dizer às pessoas para lhes dar segurança :-)
De Anónimo a 29 de Janeiro de 2005 às 17:24
Texto importante o teu. Uma escolha acertada e urgente... a da âncora. O mundo necessita de âncoras de serenidade, tolerância e paz...
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